Capitulo I
Os Irmãos de Máugli
 
  Capitulo II
A Caçada de Cá
 
  Capitulo III
Tigre! Tigre!
 

Livro da Selva - Tigre! Tigre!

Quando chegou à aldeia muitas pessoas se aproximaram para o ver. As pessoas comentavam e apontavam para ele, mas o padre disse que não haviam de ter medo não passava de um menino-selvagem que fugiu da selva. Entretanto uma mulher se aproximou dele e disse que Máugli era parecido com o seu filho Nadú que havia sido levado pelo tigre. E o padre pronunciou que o que a selva tirou, a selva devolveu e disse àquela mulher para dar um lar a Máugli.

Messua levou então Máugli para a sua casa, mas este não percebia a linguagem dos homens, apenas se limitava a imitar o que Messua dizia, aprendendo assim algumas palavras.

Quando chegou a noite Máugli não dormiu dentro de casa, fugiu pela janela e foi dormir num local de ervas altas. Enquanto dormia apareceu o Irmão Cinzento, o mais velho dos filhos da Mãe Loba que lhe disse que Xer Cane tinha ficado muito chamuscado, tinha ido caçar para outra zona até o que o pêlo lhe crescesse novamente, e prometeu que quando voltasse atiraria os seus ossos ao Ueinganga.

Máugli pediu então que o Irmão Cinzento lhe trouxesse sempre notícias. Este gostava da vida na aldeia, preferia viver ao pé dos animais. Depois decidiram que ele devia ir trabalhar como pastor de Búfalos, o que o deixou muito contente. Buldeo, o caçador da aldeia divagava sobre os animais da selva e Máugli disse-lhe que todas as histórias que ele contara eram invenções. No dia seguinte Máugli começou o seu trabalho, desceu a rua montado em Rama, o chefe da manada de búfalos. E levou-os a pastar, enquanto isto Máugli encontrou o Irmão Cinzento que lhe disse que Xer Cane andava à sua procura pois tencionava matá-lo mas Xer Cane tinha novamente ido caçar para outro local, então Máugli combinou com o Irmão Cinzento que, enquanto Xer Cane não voltasse, esperasse em cima de um rochedo para que Máugli o pudesse logo ver à saída da aldeia, quando o Tigre voltasse a caçar naquela zona o Irmão Cinzento iria esperá-lo no meio da planície, e assim Máugli saberia imediatamente se Xer Cane tinha ou não voltado. Certo dia, Máugli não avistou o Irmão Cinzento em cima do rochedo, então logo percebeu que Xer Cane tinha voltado à selva.

 

Máugli conduziu a manada até à planície e encontrou o irmão lobo que lhe disse que Xer Cane o iria esperar à noite no portão da aldeia. O Irmão Cinzento disse a Máugli que o tigre estava na ravina a dormir a sesta, a fim de o atacar. Este com a ajuda de Àquelá separou a manada ao meio para que Xer Cane não tivesse saída. E com a manada a correr em direcção ao tigre conseguiram matá-lo. Os pastores tinham ido dizer a Buldeo que os Búfalos tinham fugido e este foi ter com Máugli para ralhar com ele, mas quando chegou Máugli estava a tirara a pele a Xer Cane, e Buldeo ficou muito contente, pois pensava que Máugli lhe iria dar a pele do tigre, mas este disse que precisava dela para uso pessoal. Buldeo queria obrigar Máugli a dar-lhe a pele e Àquelá enfrentou Buldeo até que este foi para a aldeia e contou aos homens o que se tinha passado. Quando Máugli e Àquelá foram levar os búfalos de volta, toda a aldeia o assobiou e expulsaram-no. Máugli disse que primeiro o tinham expulsado porque era homem e agora era porque era lobo, não compreendia. Mas foi com Àquelá para a selva levando a pele de Xer Cane à cabeça, em direcção à Rocha de Conselho, como havia prometido. Quando chegou à selva dirigiu-se ao covil e disse à Mãe Loba que o tinham expulsado da alcateia dos homens, mas que tinha trazido a pele de Xer Cane.

Bàguirá correu par junto de Máugli e foram para a Rocha do Conselho. Máugli estendeu a pele em cima da pedra lisa onde o chefe se costumava sentar. Então Àquelá chamou os lobos para se reunirem e Máugli mostrou-lhes a pele do tigre e perguntou-lhes se tinha ou não cumprido a promessa que fez, e todos responderam que sim. Os lobos pediram a Àquelá que voltasse a ser o seu chefe e que Máugli os conduzisse de novo. Mas Bàguirá disse que isso não seria possível, pois quando estes já não tivessem fome poderiam mudar de ideias novamente. Máugli disse que foi expulso pela alcateia dos homens e dos lobos, logo iria caçar sozinho. Os quatro irmão disseram que queriam caçar com ele. Então a partir daí Máugli abalou para a selva e caçou com os quatro lobitos. Mas não continuou sempre só, anos depois, casou.


Que tal a caçada, caçador audaz?
Irmão, a espera foi longa e falaz.
Que dizes da caça que foste matar?
Irmão, na selva se encontra a pastar.
Onde o poder do teu orgulho exaltado?
Irmão, esgotando se vai o flanco e lado.
Onde vais depressa, assim a correr?
Irmão, vou para o covil - para morrer.

 

“Máugli abalou, pois, para a Selva e, a partir daquele dia, caçou com os quatro lobitos. Mas não conteinuou sempre só, porque, anos depois, fez-se homem e casou. Mas isso é história para adultos.”

 

O canto de Máugli
(Que ele cantou na Rocha do Conselho dançando sobre a pele de Xer Cane)

O canto de Máugli – sou eu Máugli que canto.
Ouça a selva as coisas que fiz.
Xer Cane disse que havia de matar -  matar! Às portas da alvorada mataria, Máugli, a rã!
Comeu e bebeu. Bebe a fartar, Xer Cane, pois quando voltarás a beber? Dorme e sonha com a vítima.
Eu ando só nas pastagens. Vem cá, Irmão Cinzento!
Vem cá, Lobo Solitário, pois vai haver grande caçada.
Toca-me os grandes búfalos machos, os touros azulados da manada e olhos raivosos.
Tange-os de um lado para o outro, às minhas ordens.
Ainda dormes, Xer Cane? Desperta, vá, desperta!
Aqui venho eu, e atrás de mim os touros.
Trama, Rei dos Búfalos, deu uma patada.
Ó Águas do Ueinganga, para onde foi Xer Cane?

Não é Íqui para abrir furos, nem Mão, o pavão, para voar. Não é Mangue, o Morcego, para se pendurar nos ramos. Os caniços a estalarem dizem-me para onde fugiu.
Aú! Está acolá. Aú! Está acolá. Debaixo das patas de Rama jaz o coxo!
Levanta-te, Xer Cane! Levanta-te e mata. Aqui há carne; parte o cachaço aos touros!
Pst! Está a dormir. Não o acordemos, pois a sua força é muito grande. Os milhafres desceram para o ver. As formigas pretas saíram da terra para o ver. Há uma grande assembleia em sua honra.

Alala! Não tenho pano para me cingir. Os milhafres vão ver que estou nu. Envergonho-me de me encontrar com tanta gente.

Empresta-me a tua pele Xer Cane. Empresta-me a tua pele de riscas vivas para eu poder ir à Rocha do Conselho.
Pelo touro que me comprou, fiz uma promessa – uma pequena promessa. Só me falta a tua pele para cumprir a minha palavra.

Coma a faca – com a faca dos homens -, com a faca do caçador, do homem, vou curvar-me para receber a minha dádiva.

Águas do Ueinganga, sede testemunhas de que Xer Cane me dá a sua pele pelo amor que me tem. Puxa, Irmão Cinzento! Puxa, Àquela! Que a pele de Xer Cane é pesada.

A Alcateia dos homens está irada. Atiram pedras e falam como crianças. Tenho a boca a sangrar. Fujamos daqui.

Pela noite fora, pela noite quente, fugi comigo apressados, meus irmãos. Deixemos as luzes da aldeia e corramos para a Lua baixa.

Ó Águas do Ueinganga, a Alcateia dos Homens expulsou-me. Nenhum mal lhes fiz, mas tinham medo de mim. Porquê?
Alcateia de Lobos, também vós me expulsastes. A Selva está cerrada para mim e as portas da aldeia também. Porquê?
Assim como Mangue voa entre os brutos e as aves, assim voo eu entre a aldeia e a Selva. Porquê?
Eu danço em cima da pele de Xer Cane, mas tenho o coração pesado. Tenho a boca golpeada e ferida pelas pedras da aldeia, mas trago o coração leve, porque voltei à Selva. Porquê?
Estas duas coisas lutam dentro de mim como as serpentes lutam na Primavera.
A água sai-me dos olhos; mas eu riu-me enquanto ela cai. Porquê?
Eu sou dois Máuglis, mas debaixo dos pés tenho a pele de Xer Cane.
Toda a Selva sabe que matei Xer Cane.
Olhai – olhai bem, ó Lobos!
Ahae! Trago o coração pesado com as coisas que não entendo.

 

in cne-escutismo.pt

 

 
         

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